Por Edgar Dallarosa Fogaca é advogado e militante do MAIS/PSOL no site Carta Potiguar.
Resolvi escrever estas linhas porque percebi que vários amigos, militantes e ativistas, tem repetido que o caminho para combater os apoiadores e as ideias da extrema direita é o banimento, seja nas redes ou no convívio social.
Quero dizer que discordo fortemente desta postura. Primeiro porque deixa o caminho livre para o crescimento das ideias reacionárias, renunciando a disputa de corações e mentes; depois, porque, se é verdade que cresce no mundo a base social que dá sustentação as ideias e ao programa da extrema direita, também é verdade que muito deste crescimento se dá em meio a confusão generalizada e a descrença na política institucional e nos políticos tradicionais.
Após o assassinato brutal e covarde da vereadora Marielle, pipocaram nas redes sociais mensagens que relativizam a tragédia, buscando ligar a trajetória dela ao crime organizado. Vejam, mesmo que ela fosse uma advogada do PCC (como foi a trajetória do atual Ministro do STF, Alexandre de Moraes, o mesmo que diz que aplicar as leis no Brasil é ser chamado de fascista), nenhum ser humano merece morrer de forma tão covarde. Ainda mais ela, que tem sua trajetória marcada pela defesa da vida, inclusive de policiais mortos em serviço e suas famílias. Sentimos asco desta postura e fomos as redes vociferar, xingar, reprimir e atingir publicamente todo e qualquer indivíduo que ousou demonstrar desconhecimento sobre o tema. Vejamos que, dados da FGV, coletados no Twitter nos 2 dias seguintes à execução, deram conta de que apenas 7% eram comentários de ódio. Como disseram por aqui, eram comentários criminosos, desprezíveis, mas extremamente minoritários.
Façamos um exercício de reflexão e respiremos fundo, várias vezes. É preciso diferenciar os agentes conscientes da extrema direita e os confusos. Esta é uma linha muito tênue, mas precisamos trilhar este caminho. Por exemplo, não há diálogo possível com Bolsonaro, Malafaia, Magno Malta e a escória da bancada da bala e da Bíblia no Congresso Nacional. São quadros políticos muito capazes e que sabem exatamente que, ao pregar ódio e intolerância política e religiosa, aumentam a sua base social de apoio, apostando na desinformação e na indigente educação política do brasileiro. Para estes, façamos o necessário combate permanente e cotidiano.
Mas bem, não acredito que a base de apoio real/orgânico da extrema direita seja, ainda, tão grande, ao ponto que estejamos às portas de um golpe de estado e a instauração de uma ditadura no Brasil. Do contrário, não seria nas redes e sim fisicamente, nas ruas, que faríamos o enfrentamento. Aliás, esta base de sustentação, se dá muito mais pela negativa do que pelo apoio direto as ideias e o programa fascistas ou neonazistas. O povo brasileiro, especialmente aquele que sofreu primeiro os efeitos da crise econômica internacional, os precarizados, os subempregados, os desempregados, os negros e moradores das periferias, aqueles que não conseguem pagar suas contas e colocar comida na mesa, estão fartos. Olhando para a política tradicional não enxergam alternativa viável e na qual confiem, deslocando seu apoio para aqueles que, demagogicamente dizem o que o povo quer ouvir. Enquanto a esquerda não elabora um programa alternativo para a segurança pública, limitando-se ao programa máximo revolucionário ou mais verbas para a polícia, a direita fala firme e pede punição.