terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

LITERATURA POTIGUAR >> 11 curiosidades da vida literária potiguar


zila mamede


MOTIVOS DE ESPANHA

1 – Quando eu era repórter do jornal Tribuna do Norte, de Natal, fui entrevistar Câmara Cascudo por motivo da indicação do seu nome para compor o Conselho Federal de Cultura. Da conversa com o escritor, que se estendeu sobre vários assuntos, resultou ampla reportagem de página inteira. A certa altura, Cascudo disse haver terminado de escrever um livro – “Motivos de Espanha” – sobre a presença espanhola na vida cultural do Brasil. Esse livro não foi publicado. Que fim levou?

GRAÇAS, ZILA MAMEDE

2 – Pesquisando coleções de velhos jornais e revistas, o escritor Thiago Gonzaga nos forneceu cópia de uma que encontrou no jornal A Ordem, de Natal, a seguinte nota:
GRAÇAS
Zila Mamede agradece a N.
S. do P. Socorro, uma graça
alcançada, com promessa de publicar.

Natal, 28 de fevereiro de 1945
Eis aí um dado interessante para a biografia da poeta – sua religiosidade. Aspecto este, aliás, que não se acha de modo explícito em sua obra. Zila – vale notar – tinha, então, 17 anos de idade.
No mesmo jornal, edição de 15-03-1956, consta a seguinte notícia:
“Quase Lua” é o título de um novo livro da poetisa Zila Mamede, o qual será lançado pelo Departamento de Cultura do Ministério da Educação.”
Ao que tudo indica, teria sido este o título provisório do livro “Salinas”, editado em 1958.

ZILA E JOÃO CABRAL

3 – Quando escrevia o seu trabalho bibliográfico sobre a obra de João Cabral de Melo Neto, Zila disse que o mesmo iria denominar-se “Um Poeta Só João” (alusão ao poema “Uma Faca só Lâmina”, de João Cabral), depois mudou o título para “Civil Geometria”.

O AMIGO MORTO DE ZILA

4 – Certa vez, perguntei a Zila qual era “o amigo morto” a quem está dedicado o poema “0 Galo (do Convento Santo Antônio)”, no livro “Exercício da Palavra”. Em resposta, ela escreveu do próprio punho à margem de uma página dos originais do meu livro “Guia Poético da Cidade do Natal”:
“Manoel Onofre: este poema é dedicado a Djalma Maranhão, mas quando foi publicado a primeira vez, no jornal, tiraram o nome de Djalma. Não deixei que publicassem. Pelo menos fica isso aqui registrado para a história. E nos livros não incluí mais o nome dele, para não ser retirado novamente. Esta história é meio trágica, não? Assim, você fica sabendo. Não é possível que na próxima edição o nome de Djalma não apareça.
Natal, 20 de Junho de 1983.”

Djalma Maranhão, político de esquerda, Prefeito de Natal, que fora preso pelo sistema repressivo a serviço da ditadura militar, falecera no Uruguai, onde se exilara. Foi Djalma Maranhão quem adotou o galo de bronze da torre de Santo Antônio como símbolo da cidade do Natal, por sugestão de Câmara Cascudo. Dedicando-lhe o poema, Zila Mamede caiu nas malhas da censura política, então vigente. A ditadura afiava suas garras.

PROSA DE ZILA?

5 – Em suas pesquisas, Thiago Gonzaga descobriu, na prestigiosa revista “Careta”, do Rio de Janeiro (1960), a coluna “Contos e Pontos”, do escritor natalense Umberto Peregrino, na qual consta a seguinte nota:
“Quarenta mil livros estão apodrecendo em Natal – denuncia a jornalista Zila Mamede, em reportagem publicada no jornal O Poti, daquela capital”.
Refere-se a nota à biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, cujo Presidente, Nestor Lima, é responsabilizado pelo estado em que a mesma se encontrava.
Na mesma coluna, entre outras pequenas notas, consta que “a poetisa do Arado, Zila Mamede, está escrevendo um romance.”
Esse romance, se realmente existiu, nunca foi publicado. Zila Mamede não deixou obra em prosa, exceto dois trabalhos bibliográficos.

BOTE A SAIDEIRA, ONOFRE!

6 – Quando organizou a antologia “Contistas Norte-rio-grandenses” (1966), Nei Leandro de Castro incluiu nela o conto “A Primeira Feira de José “, de minha autoria, mas recomendou-me que acrescentasse, num dos diálogos, a expressão “Bote a saideira, Seu Tonho”. Aceitei a sugestão do antologista, escritor e poeta renomado.
Republicando esse conto, em um volume (1973), sob o mesmo titulo, resolvi suprimir o acréscimo sugerido por Nei Leandro. Algum tempo depois, qual não foi a minha surpresa, quando, ao folhear o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, deparei-me com o verbete “saideira”, nos seguintes termos:” (8-i) (De sair – deira). S. f. Bras. Gir. 0 Último (13) “conversavam demais, cuspiam no chão e terminavam por solicitar: -Bote a saideira, Seu Tonho” ( M. Onofre Júnior, em Nei Leandro de Castro, Contistas Norte-rio-grandenses, p. 65).”
É claro que fiquei muito ancho, feliz da vida, por abonar para o famoso dicionário brasileiro (graças a Nei Leandro) aquela palavra.
Na terceira edição do meu livro “Chão do Simples” (2014), em que incluí o conto “A Primeira Feira de José”, restabeleci o diálogo, com a palavra “saideira”.
A titulo de curiosidade, registre-se que diversos outros escritores norte-rio-grandenses abonaram palavras, com a citação de trechos de suas obras no Aurélio: portanto, constam na bibliografia do livro. São eles: Câmara Cascudo, Jaime Adour da Câmara, Homero Homem, Hélio Galvão, Polycarpo Feitosa, Oswaldo Lamartine de Faria, Tobias Monteiro, Newton Navarro, Umberto Peregrino, Renard Perez, Peregrino Júnior, Manoel Rodrigues de Melo e o próprio Nei Leandro de Castro.
Dentre os escritores célebres, clássicos lusófonos, os mais citados são Machado de Assis e Camilo Castelo Branco, seguidos de Carlos Drummond de Andrade, Aquilino Ribeiro, Eça de Queiroz, Antonio Feliciano de Castilho, José Lins do Rego, etc.

MINHA CIDADE NATAL

7- “Crônica da Minha Cidade Natal”, livro de memórias de Umberto Peregrino teve o seu título mudado para “Crônica de Uma Cidade Chamada Natal”, por sugestão do editor Carlos Lima, que o lançou em 1989. A obra de alta qualidade, deveria estar na estante de todo bom natalense.

FUNDADORES DA ANRL

8- Em 1936, o Jornal do Commércio, do Rio de Janeiro, publicou reportagens sob o titulo “Instalou-se ontem a Academia Norte-rio-grandense de Letras“, na qual relaciona 20 acadêmicos fundadores da instituição, entre estes Câmara Cascudo, cujo patrono figura como sendo Augusto Severo (Cascudo, depois, o substituiu por Luís Fernandes).
Acrescenta a matéria:
“Para as cinco restantes cadeiras os acadêmicos serão eleitos dentre os srs. Adauto Câmara, Eloy de Souza, Januário Cicco, José Augusto, Nestor Lima, Rodolfo Garcia, Matias Maciel Filho, Tobias Monteiro, Valdemar de Almeida e Tavares de Lyra”.
Sabe-se no entanto, que cinco desses nomes, aliás, dos mais ilustres, não foram eleitos: Eloy de Souza, José Augusto, Rodolfo Garcia, Tobias Monteiro e Tavares de Lyra. Por quê? Não se sabe. José Augusto veio a ser eleito, anos depois, quando se aumentou para trinta o número de cadeiras, em 1943. E Eloy de Souza elegeu-se em 1949, sucedendo a Antônio Pinto de Medeiros.

E POLYCARPO FEITOSA?

9- Com referência aos acadêmicos fundadores da ANRL, causa estranheza a ausência, entre eles, de Polycarpo Feitosa (pseudônimo de Antonio de Souza), que, à época da fundação da entidade já se tornara escritor consagrado.

IMORTAL. PRA QUÊ?

10- Quatro membros da ANRL renunciaram à imortalidade em diferentes ocasiões – Antônio Pinto de Medeiros, Othoniel Menezes, Esmeraldo Siqueira e Umberto Peregrino – mas somente o primeiro teve o seu pedido de desligamento aceito pela instituição.

HAICAI DE JARBAS MARTINS

11- Quando toma posse na Academia, o novel acadêmico profere, da tribuna da casa, o elogio de praxe aos acadêmicos que o antecederam na cadeira. Alguns discursos estendem-se, prolixos, outros são lacônicos. Todos se publicam na Revista da Academia. Bateram recordes: o de Ernani Rosado, por ser mais longo (44 páginas), e o de Jarbas Martins, o mais curto (2 páginas).

EM BUSCA DA SUSTENTABILIDADE >> FAO lança livro sobre ações integradas de sustentabilidade agrícola


Formas inovadoras de produzir alimentos são importantes para a comunidade internacional atingir as metas da Agenda 2030. Foto: ONU.A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) lançou um livro que discute estratégias integradas para garantir a sustentabilidade agrícola. Com contribuições de 78 especialistas, o volume aborda desde demografia e pobreza rural até biodiversidade e escassez de água, apresentando exemplos viáveis para articular setores da produção de alimentos sem prejudicar o capital socioambiental existente.

Segundo a agência da ONU, um terço das terras agrícolas é avaliada como degradada em níveis de moderado a alto. A agricultura é responsável por 70% da coleta de água no mundo e está associada à poluição ambiental. A FAO também estima que a produção de alimentos responde por 75% da perda da agrobiodiversidade.
O organismo internacional ressalta ainda que os sistemas de produção agrícola, incluindo na conta o desmatamento, contribuem com 29% das emissões globais de gases do efeito estufa. Esses gases estão na origem das mudanças climáticas, que já têm impacto sobre os meios de subsistência das populações mais vulneráveis, especialmente nas áreas rurais.
“Não podemos continuar a produzir alimentos da mesma maneira”, contando com técnicas agrícolas intensivas, insumos químicos e mecanização, afirmou o chefe da FAO, o brasileiro José Graziano da Silva, por ocasião do lançamento do livro.
Na avaliação do dirigente, ações pontuais, que tentam encaixar novas técnicas em padrões produtivos já estabelecidos, são insuficientes para colocar a agricultura num caminho sustentável. Segundo Graziano, é necessário revisar políticas e orientações mais amplas, a fim de lidar com os conflitos de interesse que surgem com a necessidade de mudar o modo de cultivar alimentos.
“Precisamos mudar para uma abordagem mais interconectada da sustentabilidade”, enfatiza o especialista.
O livro Alimento Sustentável e Agricultura: Uma Abordagem Integrada apresenta evidências e experiências que mostram como a agricultura sustentável pode ser aprimorada em diferentes escalas. A obra reúne 48 capítulos de pesquisadores da FAO, universidades e outras organizações. Em quase 600 páginas, o leitor pode conhecer iniciativas de governança e políticas públicas para a resolução de questões nacionais e globais.
Editada pela FAO em parceria com a Academic Press Division, da Elsevier, a publicação é direcionada a formuladores de políticas, profissionais de pesquisa e extensão agrícola, de desenvolvimento e estudantes e professores de ciências biológicas, sociais e agrícolas.
“Governos, cientistas, sociedade civil e setor privado precisam de um entendimento comum de conceitos, métodos e estratégias, que não devem ser pensados separadamente, mas sim de forma interconectada por todos os setores”, defende Clayton Campanhola, editor-chefe da publicação e líder do Programa Estratégico da FAO para Agricultura Sustentável.
A seção final do livro se concentra em quatro áreas: pesquisa e inovação; políticas e incentivos; mobilização de recursos; e governança e instituições. Esses eixos são considerados críticos para promover transformações estruturais significativas nos sistemas alimentares. Também são propostas recomendações para atores envolvidos com a produção agrícola.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

GOVERNO DO RN ABRE PROCESSO SELETIVO >> Começam hoje (11) as inscrições para a contratação de alfabetizadores e técnicos agrários


A imagem pode conter: texto

Começam hoje (11) as inscrições para a contratação de alfabetizadores e técnicos agrários que atuarão no Projeto de Alfabetização com Qualificação Social e Profissional para o Campo. Estão disponíveis 200 vagas, sendo 100 para cada profissional. 

Os candidatos devem comparecer, com a documentação exigida pelo edital, em um dos três pontos de inscrições. Atenção para as datas e locais de inscrições: hoje e amanhã (12), no IFRN de João Câmara. Amanhã e quarta-feira (13), no IFRN de Mossoró. Nos dias 13, 14 e 15 de fevereiro no IFRN Central de Natal. 

Para conhecer o edital e ter mais informações sobre este processo seletivo simplificado, acesse o portal da Funcern, disponível em: www.funcern.br 

A ação conta com recursos do acordo de empréstimo com o Banco Mundial, via Governo Cidadão.

UM GOVERNO NO MÍNIMO ESQUIZOFRÊNICO >> ABIN espiona bispos e cardeais e o General Heleno traça combate à Igreja Católica

O Palácio do Planalto quer conter o avanço da Igreja Católica na liderança da oposição ao governo Jair Bolsonaro. Na visão do bolsonarismo, a Igreja é uma tradicional aliada do PT e está se organizando para liderar debates em conjunto com a esquerda. O alerta ao governo veio de informes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), chefiada pelo general Heleno, e dos comandos militares. Os relatos são de encontros recentes de cardeais brasileiros com o papa Francisco para discutir o Sínodo sobre Amazônia, que reunirá em Roma, no mês de outubro, bispos de todos os continentes.
A reportagem do jornal O Estado de S. Paulo destaca que "durante 23 dias, o Vaticano vai discutir a situação da Amazônia e tratar de temas considerados pelo governo brasileiro como uma 'agenda da esquerda. O debate irá abordar a situação de povos indígenas, mudanças climáticas provocadas por desmatamento e quilombolas. 'Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí', disse o ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, que comanda a contraofensiva."
A matéria ainda informa que "com base em documentos que circularam no Planalto, militares do GSI avaliaram que os setores da Igreja aliados a movimentos sociais e partidos de esquerda, integrantes do chamado 'clero progressista', pretenderiam aproveitar o Sínodo para criticar o governo Bolsonaro e obter impacto internacional. 'Achamos que isso é interferência em assunto interno do Brasil', disse Heleno. Escritórios da Abin em Manaus, Belém, Marabá, no sudoeste paraense (epicentro de conflitos agrários), e Boa Vista (que monitoram a presença de estrangeiros nas terras indígenas ianomâmi e Raposa Serra do Sol) estão sendo mobilizados para acompanhar reuniões preparatórias para o Sínodo em paróquias e dioceses."

VITÓRIA DOS TRABALHADORES >> Dono da Riachuelo perde ação para Guilherme Boulos após ser chamado de hipócrita

Flávio Rocha afirmou em fevereiro que sua candidatura à presidência seria uma traição ao Brasil 200
A Justiça arquivou ação por danos morais movida pelo dono da Riachuelo Flávio Rocha contra o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto Guilherme Boulos. O processo era baseado numa declaração de Boulos, via twitter, que chamara o empresário na pré-campanha eleitoral de 2018 de “tremendo hipócrita”:
– “Flavio Rocha, dono da Riachuelo, lançou manifesto atacando a esquerda e dizendo que é o livre mercado que salvará os pobres da miséria. É um tremendo hipócrita, cuja empresa foi condenada por trabalho escravo”, disse Boulos.
Ao arquivar a ação, a magistrada afirmou que “não é aceitável excesso de suscetibilidade de quem deseja concorrer a cargo de exposição política e pública”.
O promotor do caso deu uma aula sobre o significado da palavra hipocrisia. Na peça, em que pede o arquivamento da denúncia, ele escreveu que Flávio Rocha se enquadrava na classificação em razão do contexto em que a palavra foi usada:
– “Hipócrita é aquele que defende uma coisa, quando sente ou pensa outra, que dissimula sua verdadeira personalidade e afeta, quase sempre por motivos interesseiros ou medo de assumir sua verdadeira natureza, qualidades ou sentimentos que não possui. No caso em comento há pertinência no uso da palavra porque, no discurso do querelado (pré-candidato à presidência da República), o autor privado (também pré-candidato à presidência da República da República) agia de forma diversa daquilo que pregava em suas atividades comerciais”, escreveu. A defesa de Flávio Rocha já avisou que vai recorrer.

POSITIVO >> Governo japonês vai reduzir uso de plástico em órgãos públicos


A poluição provocada pelos plásticos é uma tragédia ambiental global que contamina o solo e os mares
NOTA DO BLOG: Outra questão  também que o Japão tem que proibir e que com certeza teria uma grande importância ambiental é a proibição da caça às baleias que ainda representa um péssimo exemplo para o mundo!
SEGUE ABAIXO A MATÉRIA:
O governo japonês decidiu cortar o uso de produtos de plásticos em cafeterias e lojas em cerca de 200 órgãos e instituições ligadas ao governo, como universidades, a partir do ano fiscal de 2019, que tem início em abril.

A decisão tem como objetivo reduzir a quantidade de dejetos de plástico nos oceanos. Ela foi tomada quando as diretrizes para a assinatura de contratos entre o governo e operadoras de cafeterias e lojas estavam sendo revisadas.

Será pedido às operadoras de cafeterias que evitem o uso de talheres e recipientes descartáveis de plástico. A exceção é para serviços a portadores de deficiências.


Os donos de lojas de conveniência e demais varejistas serão orientados a deixar de fornecer sacolas plásticas, além de canudos e colheres de plástico.

O governo afirma que só irá assinar contratos com entidades capazes de atender aos novos padrões.

O ministro do Meio Ambiente, Yoshiaki Harada, afirmou que as novas diretrizes serão rigorosamente aplicadas. Ele disse acreditar que a campanha do governo incentive autoridades provinciais, municipais e diversos setores industriais a adotar a medida.

Maria da Penha defende mais políticas públicas de combate à violência no país.


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Símbolo do combate à violência de gênero no Brasil, Maria da Penha sobreviveu a duas tentativas de homicídio cometidas pelo então marido e transformou sua dor em uma histórica lei para proteger as mulheres de violência doméstica e familiar. Apesar dos avanços que a sua luta trouxe, ela reconheceu em entrevista à Agência Efe que ainda faltam políticas públicas sobre o tema no país.
“Eu garanti uma vida sem violência para muitas mulheres, principalmente para as minhas filhas. Com a minha luta, elas têm hoje certas garantias”, afirmou a biofarmacêutica, aos 74 anos.
O inferno de Maria da Penha começou em 1983. Naquele ano, o então marido, o professor colombiano Marco Antonio Heredia Viveros simulou um assalto na sua própria casa e atirou enquanto ela dormia. Ela adquiriu uma paraplegia irreversível.
“No momento no qual a bala me atingiu eu estava dormindo. Não vi quem tinha disparado, embora sempre soubesse que foi ele. Depois me informei da sua versão, ele tinha contado ladrões que entraram na casa, mas quando o tiro foi disparado os vizinhos não viram sair ou entrar ninguém”, lembrou.
Algum tempo depois de sair do hospital, onde ficou internada por quatro meses, o ainda marido tentou eletrocutá-la enquanto ela tomava banho na sua casa, em Fortaleza. Foi então que Maria da Penha reuniu coragem, fez as malas e foi embora levando as três filhas.
A sua batalha em busca por Justiça durou 19 anos e meio. Durante esse tempo, o marido foi julgado e condenado duas vezes, mas não chegou a ser preso por conta de vários recursos apresentados pelos seus advogados.
Ela continuou lutando, escreveu um livro (“Sobrevivi… posso contar” – editora: Armazém da Cultura) e em 1998 levou o seu caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da Organização de Estados Americanos (OEA), que recomendou “condenação imediata do agressor e a mudança da legislação no país”.
O ex-marido foi preso em 2002 e quatro anos depois seu incansável esforço se transformou na Lei Maria da Penha, que busca combater a violência contra a mulher. Apesar dos avanços que a lei representa para milhares de mulheres, Maria da Penha disse acreditar que ainda existe uma “falta de compromisso” e “uma carência de políticas públicas”, principalmente em alguns municípios. Ela denunciou o fato de em alguns lugares as delegacias da mulher não funcionarem 24 horas por dia e propõe que os centros de referência para elas sejam instalados dentro dos hospitais, especialmente em cidades menores.
De acordo com os últimos dados da organização Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 4.539 mulheres foram assassinadas em 2017, sendo que 1.133 casos se enquadram no crime de feminicídio.
Antes de começar a entrevista, Maria da Penha deixou clara a sua preocupação com o decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro sobre a flexibilização da posse de armas de fogo no país, uma medida, que, em sua opinião, “pode aumentar o número de feminicídios”.
“Numa luta corporal a mulher pode fugir, de uma arma de fogo é muito difícil escapar. Eu fui vítima de uma arma de fogo. As sequelas continuam até hoje e já se passaram 37 anos”, destacou ela.
Seu nome é hoje conhecido em todo o Brasil e se transformou em sinônimo do combate à violência. No final de janeiro, um vídeo que se espalhou nas redes sociais mostrava um integrante da escola de samba Vai-Vai que empurra, grita e puxa os cabelos de uma mulher na frente de centos de pessoas durante um ensaio técnico no Sambódromo de Anhembi, em São Paulo. Diante da cena, várias pessoas começaram a dizer nas arquibancadas: “Maria da Penha! Maria da Penha!”, exigindo a aplicação da lei que leva o seu nome.
Por Alba Santandreu.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

MOMENTO HISTÓRICO >> Em 10 fevereiro de 1980 era criado o PT um partido que sempre esteve ao lado do povo!


É de Milton Nascimento a frase que aponta com exatidão o lugar do artista no mundo: ele vai onde o povo está. Embora com missões distintas, um partido político formado a partir de lutas populares também padece e sobrevive de jornada semelhante. 

Não por acaso, este foi o caminho trilhado pelo Partido dos Trabalhadores desde o dia 10 de fevereiro de 1980. Passados 39 anos, a maior legenda de esquerda da América Latina segue mais forte do que nunca, mas algo do início permanece – O PT sempre estará ao lado do povo, onde o povo estiver.

RECONHECIMENTO >> Diretor brasileiro sai em defesa de Lula e denuncia sua prisão no Festival de Berlim


Helvécio Marins Jr, durante a estreia internacional do seu filme "Querência" no Festival de Berlim, pediu "Lula livre" e disse à plateia que a prisão do petista é "absurda" e que ele foi "o maior e melhor presidente da história do Brasil".
O ex-presidente Lula foi homenageado, neste sábado (9), pelo diretor do filme “Querência”, Helvécio Marins Jr., no Festival de Berlim, um dos prêmios de cinema mais importantes do mundo.
Durante a exibição de estreia de seu filme, o diretor, que estava vestindo uma camiseta que faz referência ao ex-presidente, disse que “ama” Lula e que sua prisão é “uma das mais absurdas do mundo”.
“É uma vergonha para nós brasileiros. Lula é o maior e melhor presidente da história do Brasil”, disse, sob aplausos, depois de gritar “Lula livre!”.
O diretor mineiro lembrou ainda à plateia presente que está em curso uma campanha pela indicação de Lula ao Prêmio Nobel da Paz. “Peço para que todo mundo apoie”, disse. O cineasta citou ainda, em seu discurso, a vereadora Marielle Franco, assassinada no ano passado no Rio de Janeiro. “Marielle presente!”, exclamou.

O QUE ESTÁ POR VIR >> Reforma da Previdência da equipe de Bolsonaro é a mais dura até hoje contra os trabalhadores

O texto da proposta de Reforma da Previdência do governo Jair Bolsonaro (PSL) divulgada na segunda-feira (4) pela mídia é o maior ataque que a classe trabalhadora poderá sofrer nas aposentadorias e benefícios sociais caso seja aprovada no Congresso Nacional.  

Tempo mínimo de contribuição de 40 anos; 65 anos para homens e mulheres como idade mínima para entrar com pedido de aposentadoria; a privatização da Previdência por meio do sistema de capitalização; a restrição dos benefícios previdenciários, como auxílios doença e acidente, licença-maternidade; e aposentadoria com valor abaixo do salário mínimo para os mais pobres estão entre os maiores ataques.

“Esse projeto serve para manter os privilégios de banqueiros, empresários e políticos no país, mas para a classe trabalhadora é o maior ataque visto à aposentadoria e a direitos sociais”, indigna-se a metalúrgica Renata França da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas.

A idade mínima e o elevado tempo de contribuição simplesmente farão com que os trabalhadores mais pobres, precarizados e informais não consigam se aposentar. A esses, restaria a “renda mínima” do BPC (Benefício de Prestação Continuada), destinada para trabalhadores pobres e com deficiência, com um valor menor que um salário mínimo, tendo como referência o valor da Bolsa Família.

Os principais pontos da proposta estão sendo apresentados nesta terça-feira (5) aos presidentes da Câmara Federal, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) e ontem (4) o ministro da Economia, Paulo Guedes, que representa o mercado financeiro, jantou com o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, para falar sobre a reforma e outros assuntos.

O fato é que entra governo, sai governo e todos defendem que fazer a Reforma da Previdência é necessário para a saúde das contas públicas. Mentira! Dizem tudo isso para continuar beneficiando seus próprios interesses e os dos mais ricos, continuando a pagar a dívida pública para banqueiros e permitindo a sonegação das grandes empresas ao INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Foi assim com os governos de FHC, Lula, Dilma e Temer. Agora, Bolsonaro já coloca a pauta como prioritária no início da gestão. Ao final, são os trabalhadores e o povo mais pobres que são penalizados.

Por isso, a CSP-Conlutas convoca as Centrais Sindicais para, juntas, fortalecerem a Assembleia Nacional que acontecerá dia 20, na Praça da Sé, no centro de São Paulo, às 10h. “A ideia é que possamos impulsionar uma mobilização mais forte a partir da assembleia na base das categorias que possa apontar para a preparação de uma Greve Geral que derrube a Reforma da Previdência como foi derrubada no governo Temer”, afirma o dirigente da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas Paulo Barela.

Confira os principais pontos da proposta de Reforma da Previdência

– IDADE MÍNIMA: Idade mínima de 65 anos para homem e mulher requererem a aposentadoria. Atualmente é de 60 anos para homens e 55 para mulheres.

– TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO: Tempo de contribuição de 40 anos para atingir 100% do benefício. Atualmente o tempo é de 30 anos para mulher e 35 para homens.

– APOSENTADORIA PELO TETO: Para receber o teto pelo INSS, além de contribuir sobre o teto, que está R$ 5.189,82, será preciso cumprir 49 anos de contribuição. Atualmente, se contribui pelo teto, é necessário cumprir a regra do Fator Previdenciário 85/95 (soma da idade com o tempo de contribuição, 85 pontos (mulheres) e 95 pontos (homens), numa escala progressiva que aumenta até 90/100 em 2026).

– BAIXA RENDA: Renda de R$ 500 para os que comprovam baixa renda aos 55 anos ou de R$ 750 para baixa renda aos 65 anos ou mais (ambas abaixo do valor do salário mínimo), tendo como referência o valor da Bolsa Família.

– ACÚMULO DE PENSÕES: Limita acúmulo de pensão e aposentadoria com desconto progressivo. Atualmente é permitido o acúmulo de pensões em valores integrais.

– PENSÃO POR MORTE: Pensão por morte prevê cota familiar de 50% mais 10% por dependente. Atualmente é integral.

– CAPITALIZAÇÃO É PRIVATIZAÇÃO: Criação de sistema de capitalização a ser regulamentado por lei complementar. Esse regime, na prática, é a privatização da Previdência, que deixa de ser social e pública, para ser feita por fundos de pensão privados. Como num plano de saúde, o trabalhador contribui individualmente. O governo não contribui, nem as empresas. Atualmente a Previdência conta com a contribuição da empregadora, governo e trabalhador.

– SERVIDORES PÚBLICOS: Tempo mínimo de contribuição de 20 anos para o INSS e de 25 anos para servidores públicos. Atualmente o tempo mínimo é de 15 anos. Regimes próprios de servidores terão contribuições complementares. Integralidade e paridade de servidor valem para aposentadoria aos 65 anos.

– TRABALHADOR RURAL: Idade mínima sobe para 60 anos para trabalhador rural. Idade mínima de 60 anos para homens e 55 anos para mulheres e a contribuição recaindo sobre o resultado da produção.

Já aprovado em medida provisória, o acesso à aposentadoria dos trabalhadores do campo será dificultado, com a exigência que o segurado faça parte de um cadastro especial que vai compor o CNIS (Cadastro Nacional de Informações Sociais) que valerá a partir de 2020 como único meio de comprovação de tempo de serviço para acesso ao benefício. Para isso, ficará invalidada a declaração de sindicatos dos trabalhadores rurais como forma de comprovação de serviço, passando a ser válido apenas a autodeclaração homologada pelas entidades do Pronater (Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural na Agricultura Familiar e na Reforma Agrária), que é um órgão ligado diretamente ao governo, mas que muitos trabalhadores rurais sequer tem o conhecimento de sua existência.

Por tudo isso, vamos dizer não à Reforma da Previdência.

Vamos preparar a Assembleia Nacional que acontecerá no dia 20 de fevereiro, às 10h, na Praça da Sé, no Centro de São Paulo. Estarão na atividade caravanas de todo o país.

Participe dessa luta!

IFRN CAMPUS LAJES >> Divulgado o parecer final da avaliação socioeconômica dos candidatos

✅📢    Resultado da avaliação socioeconômica do Edital 29/2018-PROEN dos convocados da 4ª chamada
📑   Os candidatos da lista diferenciada 02 do edital 29/2018-PROEN (Técnico Integrado) podem conferir o parecer da avaliação.
📌    O Campus Avançado Lajes divulga o parecer final da avaliação socioeconômica dos candidatos da lista diferenciada 02 que participaram da 4ª chamada.
📌           A lista 02 se destina aos candidatos autodeclarados pretos, pardos ou indígenas com renda familiar bruta per capita inferior ou igual a 1,5 (um e meio) salário mínimo que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas.
Os resultados das avaliações podem ser conferidos aqui:
http://portal.ifrn.edu.br/…/l2_-_parecer_socioeconomico_lis…

BRASIL NA CONTRAMÃO DO MUNDO >> Governo Bolsonaro quer trazer de volta os manicômios no Brasil

FF0445A3-3A46-4A44-B5DA-3D5C639B5405O Ministério da Saúde divulgou uma nota técnica quarta-feira (6/2) propondo novas diretrizes de políticas nacionais de saúde mental e de drogas. As mudanças provocaram alvoroço em especialistas na área e, especialmente, em que trabalha na ponta, com o usuário desse tipo de serviço. O texto de 32 páginas ataca diretamente demandas da luta antimanicomial, que existe no Brasil há mais de 30 anos, e que começou para combater as violações de direitos humanos nos hospitais psiquiátricos denunciadas após os anos 1970.
Em linhas gerais, a nota abre diversos precedentes para o retorno de terapêuticas usadas amplamente no passado como a convulsoterapia [o uso terapêutico de choques em casos extremos, onde o paciente não atende a comandos de maneira consciente] – com um verniz de modernidade – bem como aponta a abstinência como melhor tratamento do que a redução de danos para o caso de dependentes químicos. Além disso, estimula a relação dos chamados CAPS (Centros de Atenção Psicossocial, que recebe pessoas em situação de vulnerabilidade para atendimento médico e psicológico, o inclui usuários de drogas, moradores de rua, etc), que trabalham com a lógica da redução de danos, com hospitais psiquiátricos e o fortalecimento das comunidades terapêuticas. A redução de danos trabalha com a lógica de dar possibilidade de o dependente químico retomar a dignidade e poder controlar o uso da droga.
Para a psicóloga Rita Almeida, que trabalha na rede de saúde mental do SUS (Sistema Único de Saúde) desde 1995 e é conselheira do CRP-MG (Conselho Regional de Psicologia) em Juiz de Fora, a suposta relação harmônica entre essas lógicas é uma falácia. “O que ficou óbvio na nota é o que a gente chama de mudança de lógica. E ela é um gatilho desencadeador de tudo aquilo que a gente vem tentando desconstruir ao longo dos anos. Quando a nota diz que é possível que o hospital psiquiátrico, os CAPS, a comunidade terapêutica convivam harmonicamente, ela diz o seguinte: a lógica manicomial vai voltar. Porque a gente sabe que na queda de braço de uma lógica que exclui, que prende, que é centrada na abstinência, para outra que trabalha com a redução de danos, que lida com as diferenças de forma mais democrática, quem vai ganhar? Ainda mais no Brasil de hoje, nesse atual momento. Qual o modo de eu lidar com aquilo que me incomoda? Eu prendo. É a mesma logica do cárcere. Eu isolo, eu faço aquilo ficar do jeito que eu quero, eu formato, essa é a lógica prevalente”, explica.
O filme “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodanzky, de 2001, mostra com exatidão o risco dos hospitais psiquiátricos e o uso como terapia antidrogas. No filme, o personagem Neto, vivido pelo ator Rodrigo Santoro, é flagrado com um cigarro de maconha e mandado pelos pais para um manicômio, onde passa por uma série de violações: toma choques elétricos, medicações fortíssimas e é obrigada a conviver como em uma prisão com outras pessoas que têm doenças mentais das mais diversas. O final do filme, sem querer dar spoiler (contar o que será visto), é com um jovem com a condição psicológica devastada e que, aí sim, adquire doenças psiquiátricas.
Rita demonstra especial preocupação com o conceito amplamente defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) desde a campanha e depois, durante o discurso de posse, de acabar com as ideologias. “O novo governo trabalha com essa ideia que a gente precisa desideologizar a politica, ou seja, que a politica ideológica seria nociva. E a luta antimanicomial é uma das apontadas como sendo ideológica. Só que não existe nenhuma política que não seja ideológica. A questão é a quem ela serve: se é uma ideologia que serve a quem está no poder, no caso os ditos normais, quando se discute a luta antimanicomial, ou se ela é uma ideologia que serve à diferença, à loucura, às minorias, aos oprimido, aos massacrados. Aos que estão oprimidos naquela mesma política dos ditos. E essa política antimanicomial, obviamente, se sustenta a partir da perspectiva do louco, da loucura, da diferença, daqueles que viveram aprisionados e que passaram toda uma vida torturados. A gente sabe bem o que foi a história do manicômio no Brasil”, explica a psicóloga, que é cuidadosa ao dizer que são suposições, já que não é possível mensurar o real impacto.
No livro “O holocausto brasileiro”, Daniela Arbex retrata um pouco dos horrores sofridos pelos passageiros do “trem de doido” que eram mandados para Barbacena, em Minas Gerais, e, em muitos casos, nunca mais voltavam para o convívio social: ou porque terminavam de enlouquecer ou porque eram exterminados após sessões de tortura.
A outra questão bastante sensível contida na nota é um possível estímulo ao crescimento das comunidades terapêuticas como principal forma de tratamento contra a adicção. Em junho do ano passado, o Conselho Federal de Psicologia divulgou um relatório sobre as violações encontradas em inspeções nessas comunidades, em sua maioria ligadas a instituições religiosas. Vinte e oito estabelecimentos das cinco regiões do Brasil foram vistoriados em outubro de 2017 em ação conjunta do MPF (Ministério Público Federal), do Conselho Federal de Psicologia e do MNPCT (Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura) e entre as violações identificadas estão: privação de liberdade, trabalhos forçados e internação de adolescentes e castigos físicos.
Segundo Rita Almeida, é justamente essa construção da lógica hospitalar, centrada na figura do médico e na medicalização, além dos pactos do governo Bolsonaro com grupos religiosos, principalmente neopentecostais, que criam um terreno bastante favorável para que a internação e a lógica da abstinência passem a ser justificativas para uma cura. “Sem medo de errar, cerca de 90% ou mais das comunidades terapêuticas estão vinculadas a entidades religiosas e estão centradas na abstinência e salvação. Nada mais ideológico que isso: imaginar que Jesus será o grande salvador. Todo esse processo abre precedente isolamento, castigo físico, cerceamento de liberdade”.
Sobre o uso da palavra “convulsoterapia” na nota, Rita prefere, mais uma vez, focar na discussão central, que, para ela, é o conceito de tudo isso. “Não é a terapêutica em si [uso de choques, anestesia], mas quando eu abro o precedente para que aquilo faça parte de uma lógica de política publica, eu abro a possibilidade para que seja usado de novo e como era usado antigamente. Quando se dava choque nos anos 1970, a lógica que se usava era a terapêutica. Ninguém dava choque para torturar, dizia que era terapia. Mas a gente sabe que diante de uma lógica de aprisionamento, de exclusão, o choque pode passar a ser usado como medida punitiva”, analisa a psicóloga com ampla experiência no trabalho de redução de danos.
Para Nathalia Oliveira, integrante da Plataforma Brasileira de Políticas de Drogas, coordenadora da Iniciativa Negra por Uma Nova Política de Drogas e preside o COMUDA -SP (Conselho Municipal de Política de Álcool e Drogas de São Paulo), o texto técnico se baseia em uma nota do Conad (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas) do ano passado, que apontava na direção da abstinência.
“Esse objetivo da abstinência não é possível porque não existe uma sociedade que não faça uso de drogas. Até porque, às vezes, o uso abusivo de drogas está relacionado a outros transtornos de fundo. É tipo enxugar gelo, porque você gasta dinheiro para deixar pessoas abstinentes, só que esquece que outras pessoas vão fazer uso. É preciso admitir que existe um comportamento na sociedade. As pessoas vão fazer uso de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas. Qual é a abstinência que estamos falando? Um mundo sem álcool, por exemplo?”, afirma.
Outro ponto bastante problemático é a questão da guerra às drogas. “Eles se colocam contrários à legalização das drogas, o que é uma corrente de contramão ao que o mundo está fazendo. Vários países estão legalizando a cannabis para uso da indústria, medicinal ou recreativo. Então, de novo, de que droga estamos falando? Tem drogas totalmente liberadas no país”, explica Nathália, que reforça a necessidade de trabalhar na redução de danos.
“[A forma colocada na nota] Realmente bane uma lógica de redução de danos, porque você esta colocando uma exigência ao usuário que é muito difícil que é a abstinência. É um tratamento de alta exigência para pessoas que estão com problemas complexos relacionado a droga. Além do mais, a abstinência não garante que ela não vá ter outros transtornos de ordem mental”, afirma.
Para Nathália Oliveira, é preciso entender o que está além da nota técnica, que é uma visão de mundo a partir do novo governo. “O pacote anticrimes do Moro, por exemplo, é uma lógica que está errada. Ele fala em combate ao crime organizado focando no criminoso. E aí quando se fala em droga, você quer combater o usuário, o pequeno criminoso e pequeno usuário, que se confundem na cena de uso. Isso tudo só segue a lógica da segregação no Brasil, da pobreza e do racismo institucional”, finaliza.
Por Maria Teresa Cruz