quarta-feira, 18 de abril de 2018

A FATOS HISTÓRICOS ESCONDIDOS >> Campos de concentração no Ceará, no Nordeste do Brasil.


A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, multidão e atividades ao ar livreNa tentativa de manter os ricos afastados dos sertanejos, que procuravam amparo na cidade grande devido à seca, locais de aprisionamento dos flagelados foram criados muito antes dos campos criados pelos nazistas na Alemanha.

Em 1932, devido a seca, milhares de retirantes chegavam a Fortaleza na esperança de encontrar uma solução para escapar da falta de chuva no sertão. Os jornais da época chamavam a atenção para o clima alarmante com o desembarque dos flagelados. Era comum, na época, notícias que relatavam o comportamento dos retirantes, como invasões a trens e indícios de revoltas. Criou-se com isso a imagem de homens e mulheres que poderiam se tornar ameaçadores. Entre as classes dominantes de Fortaleza, surgiu o hábito de temer o grupo de pessoas.

As famílias ficavam espalhadas pelas cidades do Interior, mas a partir de 1930 o rumo certo era Fortaleza. As elites, então, começavam a conclamar na imprensa, tanto em Fortaleza, como em Sobral e no Cariri, para a formação desses campos de concentração. 

Foram construídos, ao todo, sete campos de concentração no Ceará, distribuídos em lugares estratégicos para garantir o encurralamento de um maior número de retirantes, sendo dois em Fortaleza e os outros em Ipu, Quixeramobim, Senador Pompeu, São Mateus e Crato. De acordo com estatísticas oficiais, pouco mais de um mês após a abertura dos campos, os espaços somavam 73.918 aprisionados. 

Eles ficavam próximos a vias férreas, porque os sertanejos se deslocavam de trem. Quando eles desciam, eram encaminhados para os campos. Lá era um confinamento, eles eram vigiados e não podiam sair sem autorização. Os que saíam, eram considerados fugitivos e a ocorrência era registrada na delegacia. Havia um grande número de pessoas confinadas em um espaço para duas mil, e aí aconteceu o inevitável. Muitas doenças, epidemias e o número de mortes diárias era grande. A alimentação, além de ser escassa, era ruim.

Entre abril de 1932 e março de 1933 foram registrados mais de 1.000 mortos somente no Campo de Concentração de Ipu. Os homens tinham os cabelos raspados a zero. Os campos ainda tinham banheiros, capela e casebres divididos em pavilhões para homens solteiros, viúvas e famílias. Havia uma espécie de cadeia para os retirantes desordeiros e oficinas (de olaria, carpintaria, alfaiataria etc.) para não deixar os concentrados inativos, o que era, aliás, uma preocupação das autoridades.

Outro aspecto significativo é o nome com o qual o flagelado batizou os campos de concentração: curral do governo. Na sua vivência do mundo rural, o sertanejo sabe que o gado precisa ser encurralado para não fugir. Era uma prisão que tratava os seres humanos como bichos.

Vários dos retirantes eram 'recrutados' dos campos também para as obras de emergência do governo e até para lutar na revolução paulista de 1932. Atraídos pelas promessas de trabalho, alimentação e assistência médica, os sertanejos eram privados de sua liberdade, não podendo sair sem autorização dos inspetores dos campos. Guardas constantemente vigiavam os movimentos dos concentrados para evitar fugas. 

Vale lembrar que a criação dos campos contou com grande apoio da sociedade, como se pode perceber nos artigos elogiosos dos jornais da época, afinal, os flagelados estariam isolados e bem assistidos, o que na verdade não aconteceu. 

No ano seguinte, com as primeiras chuvas de 1933, a imprensa efetivou uma forte campanha para o fim dos campos de concentrações. As poucas chuvas que começaram a cair no sertão já forneciam uma certa segurança para os fechamentos das concentrações. Pensava-se que a cidade não corria mais o risco de invasão.

Os campos duraram exatamente um ano, feitos em março de 1932 e desfeitos entre março e abril de 1933 porque começou a chover, então o governo distribuiu passagens e sementes para os concentrados retornarem aos seus lugares de origem. Nas concentrações de Fortaleza (nos bairros Otávio Bonfim e Arraial Moura Brasil), os campos deram origem ao surgimento de favelas, como é o caso do Pirambu.

Esse episódio passou muito tempo silenciado nos livros de História do Brasil, mas os descendentes dos que sobreviveram a esses campos estão lutando para manter viva a memória do caso, para que nunca mais se repita.


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