
Um dos principais fatores que causam a poluição ambiental é o lançamento de efluentes domésticos e industriais nos reservatórios de água. Nesse contexto, fatores como o crescimento populacional, a produção agrícola e a crescente elevação na quantidade de indústrias aumentam de forma exponencial a demanda pelo abastecimento de água. Essa realidade incentiva, cada vez mais, o reúso da água tanto de origem doméstica como industrial. Alinhado a essa problemática, em abril deste ano foi iniciada a pesquisa de Pós-Doutorado Empresarial “Utilização de efluentes de laticínios na produção de mandacaru sem espinho no Semiárido nordestino”, da pesquisadora Sandra Maria Campos Alves. O estudo está ligado ao projeto Bramar e é realizado no Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Semiárido (Ufersa), em Mossoró (RN).
No Semiárido brasileiro existem cerca de 85 espécies de cactos, entre elas o mandacaru, cactácea nativa resistente as chuvas irregulares e adaptada às condições climáticas da região. Uma variedade do mandacaru é a espécie sem espinhos, que possui um manejo acessível e possui um teor de proteína de 18% mais alto que a palma, que é de 8% o que representa elevado potencial nutricional para a alimentação animal. A pesquisa objetiva a análise dos efeitos da aplicação de água residuária de laticínios na produção do mandacaru sem espinho, e foi implementada em uma área experimental com cerca de 50m2 para a produção da espécie forrageira. Um total de 100 mudas foi plantado em 25 parcelas experimentais, irrigadas a cada 15 dias com os efluentes industriais.
Resultados preliminares do experimento apontam que o uso deste tipo de efluente na produção de mandacaru sem espinho permite aumentar a produção de biomassa da planta, em período de tempo mais curto, que é de suma importância para a alimentação dos rebanhos em períodos de estiagem prolongada. “Observamos nestes cinco meses de aplicação do efluente que as mudas que receberam as doses apresentaram maior crescimento e aumento no número de cladódios (caules modificados) em relação às mudas de sequeiro (recebem somente água da chuva)”, destaca a pesquisadora. Outro resultado do experimento foi o enraizamento de 90% das mudas testadas, apenas em 10% delas houve a necessidade de serem transplantadas.
As informações relacionadas às medições biométricas, químicas e de potencial nutricional do mandacaru serão obtidas a partir de março de 2016. Segundo Rafael Batista, integrante do Projeto Bramar e professor do Departamento de Ciências Ambientais e Tecnológicas da Ufersa, o reúso da água é uma necessidade imediata ao setor industrial de Mossoró, tendo em vista que a escassez hídrica no município está sendo impulsionada pela redução gradual nas reservas de águas subterrâneas, os aquíferos Jandaíra e Arenito Açu, e superficiais como a barragem Engenheiro Armando Ribeiro Gonçalves. “Os grandes setores industriais do município com produção de petróleo, sal, fruticultura, castanha de caju e outros geram quantidades consideráveis de resíduos líquidos que mediante tratamento adequado podem ser utilizados com critério na produção agrícola e florestal”, destaca.
Projeto Bramar Com atuação em áreas experimentais do Nordeste brasileiro, o projeto Bramar, cooperação entre Brasil e Alemanha, realiza estudos em rede com grupos de pesquisadores de instituições parceiras na área de recursos hídricos. Com o objetivo de buscar alternativas com embasamento científico do uso agrícola das águas residuárias industriais de Mossoró (RN), um dos grupos da pesquisa que se dedica à análise do potencial das águas residuárias, avalia os efeitos da aplicação destes efluentes na produção de cultivos agrícolas, forrageiras e cultivos florestais. Os estudos são desenvolvidos de forma alinhada à legislação ambiental vigente, mas também com o intuito de propor novos parâmetros para o aperfeiçoamento do suporte jurídico. Texto: Ermaela Cícera Freire (Assessoria de Comunicação do Projeto Bramar/Insa)
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