sábado, 9 de julho de 2016

SOCIEDADE MODERNA X ATIVIDADES TRADICIONAIS >> A vida moderna aos poucos condena profissões tradicionais do Nordeste brasileiro


                NG - A parteira Edite Maria da Silva vive em uma comunidade de canavieiros no sertão pernambucano
Cococi, uma pequena cidade do Ceará, era parte de uma próspera indústria de gado, dominada por uma poderosa família, os Feitosa. Então, no começo dos anos 1970, uma disputa familiar, agravada pela seca, levou Cocosi ao declínio. Nos dias que correm, Rafael de Araújo Feitosa, tímido aos 36 anos, de corpo esguio e olhos azuis, resiste como um dos últimos vaqueiros do Ceará. Embora partilhe do nome de seus antepassados poderosos, nada restou de sua antiga riqueza. Os crânios de gado espalhados pelo rancho são um lembrete de que seus dias como vaqueiro encourado estão contados. Com pouca comida e água, as reses que permanecem pela área não sobreviverão por muito tempo. “As vacas nascem aqui para correr soltas sobre vastas extensões”, diz Feitosa. “À medida que a terra foi sendo vendida, fazendeiros cercaram o gado em espaços bem menores. Por isso, com o tempo, a índole selvagem do animal foi domesticada. Hoje, você pode ser vaqueiro usando uma motocicleta e vestindo calça jeans.”

Clima imprevisível, práticas insustentáveis, novos hábitos e tecnologias: diversas tradições artesanais do interior do Brasil estão sucumbindo diante de um fenômeno poderoso e inevitável – a modernização. Com o vaqueiro, desaparecem ofícios que evoluíram em seu entorno. Por exemplo, os seleiros – artesãos que moldam selas e roupas de couro para proteger os vaqueiros dos arbustos secos e grossos que recobrem o vale. A herança familiar do seleiro Espedito Veloso de Carvalho é tamanha que dizem que o avô dele equipou o cangaceiro Lampião. Agora, Carvalho transformou seu negócio de família em uma manufatura de bolsas e sandálias. “A diminuição de certos serviços pode ser atribuída ao avanço de novas tecnologias e formas de comunicação”, diz o professor e historiador Gilmar de Carvalho, especializado em cultura e artesãos da região Nordeste. “Muita coisa perdeu o sentido, ao longo do tempo, e foi descartada. Outras foram atualizadas. Tudo isso é parte da dinâmica da vida social.”

Para sobreviver, alguns artesãos reorganizaram seu ofício. A Academia de Cordelistas, em Crato, no Ceará, comandada pelo poeta Luciano Carneiro, por exemplo, preserva a arte da literatura de cordel, um livreto de poesia regional ilustrado em xilogravura, que evoluiu a partir de uma tradição oral de disseminação de notícias e questões sociais a um público majoritariamente analfabeto, trazida da Ibéria no século 18. Assim que várias formas de mídia alcançaram o sertão, o cordel evoluiu de fonte de notícias a artigo de colecionador – um artefato especial. “A perda da cultura popular fez as pessoas viverem a vida através da televisão, em vez de a viverem nas ruas”, lamenta Carneiro. “O cordel já sobreviveu ao nascimento do rádio, da televisão e agora da internet. Então, eu sei que ele vai perseverar.”

Com a tecnologia que cada vez mais substitui o aspecto manual do trabalho, “o fenômeno do desaparecimento de certas profissões, que é global, vai se acelerar nas próximas décadas”, acredita o historiador Titus Reidl, professor da Universidade do Crato. No caso do sertão brasileiro, o desafio que se impõe é saber como preservar o enorme legado de atividades históricas que, acima de tudo, representaram a cultura de toda uma região.

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