quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Confira a entrevista da secretária estadual de Juventude do RN, Divaneide Basílio, à publicação “Nós, do RN”

    Confira a entrevista da secretária estadual de Juventude do RN, Divaneide Basílio, à publicação “Nós, do RN”, produzida pelo Diário Oficial do Estado (DOE) e divulgada na edição desta terça-feira (12).
A titular da pasta criada em 2015, na gestão de Robinson Faria, fala dos desafios da gestão, sobre a militância na juventude e da importância do trabalho para a efetivação das políticas públicas para os jovens potiguares.

Com um olhar atento e otimista, Divaneide afirma que “a juventude lutou muito para que essa Secretaria existisse” e que “não é uma dádiva ou um prêmio”, mas uma conquista coletiva.

Confira a reportagem na íntegra
“Não dá para cochilar”
O olhar atento e otimista da secretária de Juventude do Rio Grande do Norte, Maria Divaneide Basílio, na luta diária para promover a cidadania e os direitos fundamentais da juventude do Rio Grande do Norte.
Por Jussara Correia

SEJURN
O cenário não é animador. De um lado, jovens lutando pela vida e pela oportunidade de construírem um futuro. Do outro, a violência, o preconceito, as drogas, a morte. É no meio desse duelo que uma mulher tem se posicionado todos os dias, com esperança e coragem para tentar mudar o desfecho dessas histórias. No período de um ano, a secretária de Juventude do Rio Grande do Norte, Maria Divaneide Basílio traçou e executou planos no intuito de oferecer aos jovens do Estado a chance de fazer boas escolhas.

Embora a Secretaria de Juventude do Rio Grande do Norte (SEJURN) tenha sido criada na gestão do governador Robinson Faria, no início de 2015, Divaneide já tem uma longa trajetória da luta pela juventude. “O meu entusiasmo vem da militância. Sempre fui da Pastoral da Juventude do Meio Popular. As pessoas brincam que é o sentimento cristão que me move e certa forma também passa por isso. Essa matriz da solidariedade que vamos cultivando nos fortalece. Além disso, acho que temos a obrigação de fazer com que dê certo. A juventude lutou muito para que essa Secretaria existisse. Não é uma dádiva ou um prêmio, é uma conquista. E não é minha, é de um coletivo e eu estou aqui em nome desse coletivo. Porque se a gente não fizer uma boa gestão, podemos comprometer a possibilidade de todo um futuro de políticas públicas para a juventude”, declarou.

O apoio do governador é outro ponto destacado por Divaneide. “Ele nos trata com igualdade e sempre diz que todas as secretarias são iguais. Muitos acham que por sermos menor, tem menos trabalho. Pelo contrário, temos que correr atrás da estrutura. Como diz o poeta ‘É melhor ser alegre do que triste’. Se eu ficar arrastando corrente e reclamando dos problemas, não sairemos do lugar”, declarou.

Parcerias

As parcerias que foram firmadas ao longo deste ano também contribuíram para que a esperança fosse renovada a cada dia. “Temos parceiros que se abriram para o trabalho, como a SETHAS, Secretaria da Mulher, Fundação José Augusto, as secretarias de Saúde, Educação, Planejamento, SEJUC, SESED, SEARH, Emater. Aprovamos uma especialização com a UFRN da política sobre drogas e com a UERN sobre Juventude. Fizemos um levantamento para saber o que existia para os jovens em cada secretaria e depois começamos a realizar nossas ações de acordo com o que identificamos em cada pasta”, afirmou.


Além disso, a Secretaria buscou parcerias nacionais, com o Governo Federal e conseguiu aprovar um programa com a Economia Solidária, via SETHAS. “Conseguimos depositar a contrapartida do programa Estação Juventude e estamos na batalha para o programa vir para o RN”, explicou.

A Ronda Cidadã, que é uma ação prioritária do Governo do Estado, está sendo coordenada pela SEJURN junto com as demais pastas que formam o eixo de prevenção. “Somos nós que vamos para a comunidade. Agora mesmo em mãe Luisa, estamos deixando quatro escolas com o programa Conexão Prevenção que é uma política sobre drogas. Temos parte da nossa equipe visitando presídios porque vamos começar o Pró-Jovem Prisional e com o ensino médio nos presídios. Queremos investir da reinserção, pois essas pessoas vão voltar para sociedade”, declarou a secretária.

Juventude viva
Os dados alarmantes sobre o extermínio de jovens negros no Estado impulsionaram o trabalho da SEJURN. “E o mais assustador é saber que mais de 80% desses jovens não tem passagem pela polícia. É propagada na mídia uma ideia de que todos são bandidos. As pessoas precisam entender que nascer pobre, negro, numa periferia não é sinal de que se tornará bandido. Claro que o erro tem que ser punido. Não defendemos a impunidade. O fato é que não podemos desistir do ser humano, pois corremos o risco de perder a perspectiva de humanidade”, declarou.


Para a secretária, o governo também tem essa obrigação de despertar a sociedade para esse aspecto humanitário. “Quando chega o final do ano, as pessoas doam uma cesta básica para alguém, mas quando morre um jovem elas não se importam. Tanto faz, é um a menos. E a gente nem procura saber da historia daquela família, aquela mãe? Qual mãe quer que seu filho morra ou mate alguém? E o direito dela de chorar e sofrer? Quando morre um jovem numa periferia, morre uma mulher jovem que fica com um bebê, morre uma mãe que perdeu seu filho. A gente tem chamado atenção porque não é um extermínio de um jovem homem negro, é um extermínio de uma população. Se estamos pensando num projeto de desenvolvimento, como esse projeto vai acontecer sem gente?”, questiona Maria Divaneide.

Por esta razão, a SEJURN aderiu ao plano Juventude Viva, que trata do enfrentamento ao extermínio da juventude negra. “Organizamos a 3ª Conferência Estadual da Juventude com mais de 300 pessoas e tivemos a maior comissão organizadora do país. Fizemos também dez Conferências Territoriais, estimulando pessoas em 32 municípios. E se perguntarem se é fácil vou dizer que não. Mas conseguimos ter 23 segmentos juvenis representados, ou seja, da pastoral, religiões de matriz africanas, movimento de pessoas com deficiência, a juventude rural, indígena, juventude cultural, o Hip-hop”, afirmou.

Lições

Para Maria Divaneide, a cultura da violência está sendo respondida com mais violência hoje em dia. Mas, ela acredita que a juventude tem dado algumas lições para a sociedade. “Quando os jovens fazem o “rolezinho” e entra nos shoppings, eles estão chamando a atenção de todos para dizer que têm o direito de circular naquele local. Acredito que a mídia também está sendo desmascarada, pois tudo de negativo que ela diz sobre a juventude está sendo provado o contrário. Basta ver os inúmeros movimentos que estão surgindo”, disse.


Durante o ano de 2015, os representantes da SEJURN observaram que a juventude de terreiro não era organizada e hoje os jovens de religião de matriz africana têm outra postura, encontraram sua identidade. “Além deles, os jovens skatistas estão montando uma associação e querem participar das decisões. A juventude das pastorais elegeu a prioridade que é essa campanha “chega de violência e extermínio de jovens”. E foram esses movimentos que, na primeira Conferência elegeram como prioridade máxima o enfrentamento ao extermínio de jovens. Isso é um ato de solidariedade. Mais 400 mil jovens participaram de todas as etapas e esse tema foi prioridade. Isso simboliza o desejo de mudança de uma cultura, de não violência. É a cultura de paz que temos que perseguir”, declarou.

Para Maria Divaneide, não se faz mudança apenas com ação policial. “Segurança não é policial na rua, é a praça aberta para a juventude usar. É ter um equipamento social ao alcance e as pessoas poderem circular de um lugar para outro. Nós estamos disputando esses jovens todos os dias com o mundo das drogas, com o preconceito, com os mais conservadores. Porque também existem jovens conservadores”, disse.

O uso das redes sociais para disseminar o ódio foi outro ponto abordado pela titular da SEJURN. “As pessoas não têm mais vergonha de dizer que odeiam as outras. As redes sociais são um importante instrumento de comunicação e divulgação, mas acho que precisamos utilizá-la de forma melhor. Acho que podemos construir campanhas mais organizadas nas redes para contrapor isso. A internet parece ser uma terra sem lei. Será que a democratização está ali? Será que podemos propagar nossas ideias com um nível de respeito sem que as pessoas lhe detonem pelo que você pensa?”, questionou.
Oportunidades e escolhas


A secretária afirmou que o futuro da juventude está associado às oportunidades que são dadas a esta parcela da sociedade. “Eu venho da mesma origem desses jovens com que estou trabalhando hoje. Também sou de periferia, também sou negra, sou filha de trabalhador rural que veio para Natal e virou operário e estudei em escola pública a vida inteira. E não foi fácil entrar na Universidade. Fui a primeira pessoa na minha família. Ou seja, o ciclo de pobreza às vezes reproduz a pobreza. A gente fica em subempregos. Eu fiz escolhas que não foram bem escolhas. Fazia balé e tive que deixar para fazer o curso de garçonete porque era o que tinha. E penso, será que eu escolhi fazer aquele curso para ajudar a minha família? Não!”, disse.


Dar oportunidade para que os jovens façam boas escolhas, este é o grande segredo. “O que fez diferença para mim? Participar de um movimento, de um grupo cultural da minha comunidade. Fui de pastoral. Todos esses lugares me ajudaram a encontrar a minha identidade. Se a gente der oportunidade para as pessoas descobrirem suas identidades, seus sonhos e desejos tudo pode mudar. Só a trajetória faz a gente entender”, afirmou.
A secretária lembrou o trabalho realizado por Herbert de Sousa, conhecido como Betinho, sociólogo e ativista dos direitos humanos brasileiro. “Muitos disseram que ele fazia assistencialismo, pois fazia campanha para dar alimentos. E ele chamou atenção para a fome. Muitos disseram que eu estava reproduzindo o assistencialismo no bairro de Mãe Luiza porque estávamos emitindo documento para os jovens. E eu respondi dizendo: esses jovens não tinham sequer um documento, como eles iam ter o curso, emprego? Acho que a gente tem que entender o que significa uma política pública na vida de uma pessoa que não tem nada”, declarou.

Planos para 2016

Depois de um ano cheio de atividades, os membros da SEJURN não vão ficar parados por muito tempo. “Nós aprendemos muito neste ano de 2015, porque uma coisa é ser sociedade civil. Eu já fui da gestão em âmbito federal, mas quando a gente chega no Estado é quando tudo acontece. Eu tinha uma visão macro do país, tinha a minha visão de militância e da trajetória no Estado. Agora temos essa responsabilidade de devolver a dignidade, a identidade aos jovens”, afirmou.


Na lista de sonhos e projetos para 2016 estão as discussões sobre o Plano Nacional da Juventude e a criação do Plano Estadual. “Terminamos nossa Conferência, fizemos a Semana da Juventude Potiguar e queremos que ela se realize com frequência. Queremos construir um Plano de Sucessão Rural. Estamos com a FJA discutindo pontos de cultura para o campo.Vamos à Brasília para Conferência Nacional da Juventude para discutir o Plano Nacional e no começo do ano já queremos construir nosso Plano Estadual. Vamos iniciar em janeiro as turmas do Programa Nacional de Inclusão de Jovens, o Projovem Prisional numa parceria com a Secretaria de Educação. Não dá para cochilar”, concluiu a secretária.

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